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Pequenas reflexões sobre cultura e trabalho rural

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23.07.09 A sociedade humana é produto das interações entre seus indivíduos, e esses são produtos da sociedade à medida que a cultura e o trabalho se tornam meios de organizações próprias das sociedades capazes de produzir bens materiais e imateriais.

A noção de cultura e sua formação como meio de organização das pessoas em produzir seus bens traz consigo um vasto panorama de significados, pois, na medida em que alteram as configurações culturais, são os próprios humanos que se alteram, pois são formados de cultura e natureza. O trabalho é um elemento cultural que possui também uma multiplicidade de significados que variam no tempo e no espaço, acompanhando a dinâmica das transformações políticas, econômicas e sociais.

O trabalho é indissociável da cultura, pois nela se assenta parte de nossa memória de como, historicamente, os seres humanos se relacionaram, através de pinturas, esculturas, domínio do fogo, domesticação de vegetais e animais, que se constituíram e revelaram, na plenitude, a fusão entre cultura e natureza. A dimensão territorial alia-se à temporal para produzir um texto não escrito capaz de concretizar a transmissão cultural. Essa tendência emana da própria constituição do ser humano. O homem, enquanto cultura e natureza, realizava suas plenas potencialidades somente quando havia equilíbrio entre essas dimensões.

Evidente que existam críticas à idéia de que as culturas humanas são formuladas a partir da atividade prática ou simplesmente do interesse utilitário. Para Sahlins o homem vive em um mundo material, mas de acordo com um esquema significativo criado por si próprio. Assim, a cultura define a vida não através de pressões de ordem material, mas de acordo com um sistema simbólico definido, que nunca é o único possível. A cultura, portanto, é que constitui a utilidade.

Trabalho e cultura, portanto, são resultados de construções históricas. Mas das formas primitivas de trabalho até aos dias de hoje existe um imensurável espaço-temporal, que exige constante reflexão acerca da dinâmica das dimensões e dos processos políticos, econômicos e sociais em que as diversas sociedades do mundo estão inseridas, porque é de onde as mesmas retiram suas reflexões e suas práticas de trabalho, seja enquanto expressão própria dos seres humanos, de suas capacidades físicas ou mentais ou apropriação dessas mesmas capacidades por outros seres humanos.

Sendo assim, o significado e o valor do trabalho rural (agropecuário) não é diferente, depende da compreensão ou incompreensão que cada sociedade lhe atribui: submissão, castigo, virtude, resistência, prisão ou libertação, afeto ao conjunto de práticas que expressam o dinamismo das relações  de produção em dada configuração territorial.

 As relações de produção são na essência relações sociais de produção, porque são estabelecidas entre as pessoas que participam do processo produtivo. Elas são estabelecidas independentemente da vontade individual de cada um no processo de produção. Os níveis de desenvolvimento dessas relações dependem do grau de desenvolvimento das forças produtivas materiais da sociedade. Por isso a ruralidade não é tão fácil de ser compreendida, pois é muito mais ampla e complexa do que a atividade econômica agrícola que é praticada num território.

Nas vésperas dos dias do colono e do agricultor, tentar entender um pouco dessa complexidade pode nos remeter à importância das unidades familiares e as transformações que ocorrem na agricultura, no contexto e em contraposição a um território dominado pelo capitalismo monopolista.

Desta forma a produção familiar surge enquanto alternativas para o desenvolvimento agrícola e pecuário: como fonte de abastecimento de alimentos mais saudáveis e diversificados; como gerador de emprego, renda e satisfação social; como equilíbrio dos impactos da dicotomia urbano/rural, em que o rural além de atender às necessidades urbanas de alimentação, diminui a pressão urbana provocada pelo crescimento desordenado das cidades.

Entretanto, a questão agrária no Brasil ainda merece maior interesse, importância, reconhecimento estratégico, estímulos e incentivos, porque a grande beneficiária das políticas públicas ainda é a grande agricultura patronal (produtora em grande escala, mas sua produção é determinada pelas condições impostas pelo comércio internacional capitalista) e não a sociedade, que nunca obteve o direito de acesso aos alimentos produzidos nos campos a preços justos.

O papel da agricultura familiar, por intermédio de colonos, pequenos agricultores e camponeses é resistir ao avanço capitalista no campo, através da preponderância na produção de alimentos, na coexistência contraditória entre as formas familiar e patronal de produção agrícola e/ou agropecuária, também como forma de garantir uma política de segurança alimentar.

*Mário Nunes Torrinha Licenciado e Bacharel em História, mestre em Desenvolvimento Regional - Universidade Federal do Amapá (UNIFAP).

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