11.12.09 No mês de novembro participei do 4º Congresso Estadual da Juventude Trabalhadora Rural do Rio Grande do Sul, no município de Santa Maria. Na ocasião me foi solicitado pelos amigos da FETAG discutir com os jovens participantes do evento questões relacionadas à cultura e o lazer no meio rural. Não sou especialista no assunto e em um primeiro momento considerei bastante difícil trabalhar esses dois temas desconectados de outros tantos que os influenciam, e que são influenciados por estes, na vida da juventude rural, como a educação, trabalho e renda, sonhos e projetos de vida. Ao mesmo tempo considerei um desafio por serem temas cruciais ao desenvolvimento e permanência do jovem no espaço rural.
Ao pensar no tema a ser abordado e na forma como faria isso me veio à cabeça algumas questões: nos dias atuais a cultura e as formas e possibilidades de lazer existentes no meio rural são diferentes das do meio urbano? Quais são a cultura e o lazer que os jovens do campo mais se identificam? Parece óbvio afirmar que a cultura e o lazer existentes nos dois espaços são diferentes, no entanto com a intensificação da comunicação entre o meio rural e o meio urbano cria-se uma cultura cada vez mais heterogênea, onde os jovens são os principais atores desta reconstrução.
De um lado, o desejo de entrar em contato com a “modernidade”, ter acesso a serviços e bens de consumo que inexistem ou são deficitários no campo, dentre os quais os principais estão relacionados ao lazer, como por ex: cinemas, shoppings, danceterias, motos, celulares, aparelhos de som e outros tantos; e do outro lado a tradição familiar, o respeito e valorização à cultura e aos costumes rurais, o gosto pela terra, pela localidade, pelo meio rural.
Segundo Carneiro, dentro dessa ambiguidade está em curso a construção de uma nova identidade. Os jovens cultuam laços que os prendem ainda à cultura de origem e, ao mesmo tempo, veem sua auto-imagem refletida no espelho da cultura "urbana", "moderna", que lhes surge como uma referência na construção de seus projetos para o futuro, geralmente orientados pelo desejo de inserção no mundo moderno. Essa inserção, no entanto, não implica a negação da cultura de origem, mas supõe uma convivência que resulta na ambiguidade de quererem ser, ao mesmo tempo, diferentes e iguais aos da cidade e aos da localidade de origem.
Baseado nas propostas de cultura e lazer levantadas pelos jovens rurais nas plenárias de discussão preparatórias ao Congresso, realizadas nos municípios e nas regionais sindicais, é possível perceber que existe essa ambiguidade entre a vontade de manter a tradição cultural existente no meio rural e o desejo de incorporar a cultura e principalmente os bens e serviços disponíveis no meio urbano.
Criar grupos de jovens nas comunidades que possam resgatar e valorizar a cultura local através das danças, teatro, culinária, festas típicas e outras expressões artísticas; reestruturar os currículos das escolas rurais para que possam valorizar e resgatar a cultura local; incentivar intercâmbios e turismo rural para que os cidadãos urbanos possam conhecer as culturas do meio rural são algumas das propostas de valorização e manutenção cultural. Por outro lado, também é demanda dos jovens o acesso à bens e serviços, que segundo eles iria melhorar a qualidade de vida, como a construção de centros esportivos e de integração, centros de inclusão digital, melhoria nos sinais de telefonia e demais meios de comunicação, maior acesso aos serviços básicos e políticas públicas de incentivo a empreendimentos que gerem trabalho, renda e lazer no meio rural.
Isso mostra uma tendência diferente de 20 ou 30 anos atrás, onde o projeto de vida urbano era o desejo da grande maioria dos jovens rurais. Com o aumento do desemprego, violência e alto custo de vida nos grandes centros é comum encontrar jovens rurais que desejam permanecer no campo, na segurança de sua cultura e família, mas é desejo de todos que o campo lhes ofereça mais opções, principalmente nos quesitos relacionados ao trabalho, ao lazer e ao entretenimento.
O campo deve ser um lugar dinâmico, agradável, com qualidade de vida, onde os jovens tenham interesse em constituir e criar suas famílias. Onde a cultura e os costumes sejam preservados, mas que também haja diversidade de opções de lazer, esporte, entretenimento (saúde, educação, transporte, segurança…), geração de emprego e renda (carro, moto, celular, festas…). Onde seja possível ter acesso às mesmas condições de vida que na área urbana (internet, cinema, teatro…). Onde haja organização e participação social dos jovens. Uma boa política de desenvolvimento do meio rural deve prever a inclusão dos jovens rurais e de suas demandas em seu processo de construção.
*Eng. Agr. Leomar Fernandando Mattia
Instituto Ecopolis