11.04.10 O longo processo de preparação do território brasileiro para o atendimento dos ditames da modernidade que inicia-se com o pós-guerra e intensifica-se a partir de meados da década de 1960, leva-nos a identificar um novo período, denominado técnico, científico e informacional.
Os diferentes períodos técnicos correspondem a diferentes meios geográficos. Espaço e tempo encontram-se indissociavelmente relacionados no movimento dialético do mundo.Esses meios e períodos que começam a insinuar-se com a Segunda Guerra Mundial, fazem-se sentir nos países pobres, e entre esses o Brasil, mais significativamente a partir da década de 1970 (SANTOS, 1996).
Essa modernização imposta ao território brasileiro desde o pós-guerra, mas de maneira mais intensa e sistemática a partir do último regime militar, e que garantiu a efetiva transformação do meio geográfico em um meio técnico, científico e informacional, exigiu a produção e instalação não apenas de uma tecnoesfera - obras de engenharia e sistemas técnicos que substituem o meio natural ou o meio técnico pré-existente –, mas também de uma psicoesfera (SANTOS, 1996), que adaptasse o território aos projetos pré-concebidos de urbanização, industrialização e modernização agrícola.
A agricultura tornou-se uma atividade científica, fortemente dependente da informação e da pesquisa. Essa agricultura modernizada altera as relações cidade-campo e exige a implantação de sistemas de engenharia complexos que garantam a produção, mas essencialmente a circulação, que neste momento precede a produção propriamente dita. O Estado participa de forma generosa, garantido a implantação de redes de circulação e comunicação.
Essa agricultura vincula-se diretamente ao mercado externo, onde tem seus preços e produção determinados, levando o país a uma incômoda posição de subordinação, em um modelo novamente agrário-exportador, mas no qual os agentes dessa agricultura modernizada possuem um enorme poder de fazer política.
No presente, aprofunda-se o uso corporativo do território, através da conexão de pontos de maior luminosidade, possibilitada pelas redes mais modernas, que atendem às demandas por fluidez do território. Estes sistemas técnicos justificam a noção de verticalidade. No entanto, o funcionamento do território não se mostra possível apenas pelas verticalidades, dependendo também de horizontalidades, pois as redes são apenas uma parte do espaço, e o espaço de alguns.
A combinação entre modernização da agricultura e instalação e modernização dos sistemas de movimento do território brasileiro evidencia a força da denominada competitividade territorial. Em um período marcado pela competitividade, as contradições sócio-espaciais advindas de outros períodos históricos não somente persistem, mas agravam-se. A divisão territorial do trabalho aprofunda-se, graças aos novos sistemas técnicos de produção e de mobilidade, tornando o território muito mais disponível às estratégias das grandes empresas. O Estado cede às empresas grande parte de suas políticas e o resultado é o uso corporativo do território.
A questão que se coloca é a viabilidade desse uso do território, que atende a interesses restritos, de agentes específicos, mas que expõe a nação a variações de um mercado temperamental, e que torna vulnerável toda uma população que não utiliza esse território como mero recurso, e sim como abrigo. Mas o que estaríamos fazendo aqui, se o uso corporativo do território fosse o único possível, e o mundo se apresentasse apenas como restrição e não como possibilidade?
O atual período caracteriza-se por uma globalização que se impõe como perversidade, por mais que nos tentem fazer crer no contrário, na medida em que nos é apresentada como fábula (SANTOS, 2000, pp.17-21).
Aprofundarmo-nos no entendimento e na discussão deste período, dominado pela técnica, pela ciência e pela informação, e na forma como o território é usado pelos diferentes agentes, mas principalmente pelas empresas, que hoje, junto aos Estados e aos organismos de governo internacionais possuem o poder de fazer política, mostra-se urgente e necessário.
Assim como mostra-se urgente e necessário o questionamento do uso do território feito por estas empresas, o território é vastamente apropriado como recurso de agentes hegemônicos. É também do território que emergem formas de resistência, pois este território, recurso de grandes empresas, é também abrigo para os não-hegemônicos, que a partir do lugar resistem.
Se ao mundo a globalização se mostra como fábula, nos lugares ela é sentida e compreendida como perversidade. É dos lugares então que devemos esperar projetos e lutas de resistência, de contraposição à racionalidade hegemônica. É urgente e necessária a busca por um projeto de nação, e não mais por projetos de governo, centrado não mais na economia, mas no cidadão.
O Brasil possui hoje um dos mais importantes movimentos sociais organizados de sua história, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Como então abandonar a esperança, e acreditar apenas na hegemonia do uso agrícola do território pelas grandes empresas? Resta-nos lembrar a Professora Maria Adélia quando diz que a humanidade caminha para o melhor, pois avança em direção a si mesma!
Ao contrário do que tanto se disse, a história não acabou; ela apenas começa.
Milton Santos, 2000, p.170 - Por uma outra globalização.
O presente texto é, em grande parte, resultado de um processo de pesquisa realizado entre os anos de 2003 e 2006 no Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo e que teve como resultado uma dissertação de mestrado; mas é também uma tentativa de avançar, a partir dos resultados já atingidos, rumo a um maior entendimento do uso agrícola do território brasileiro, que é marcado não apenas pela racionalidade da modernização hegemônica, mas também por contra-racinalidades e por espaços de resistência.
Para saber mais
MARTINS, José de Souza. O cativeiro da terra. São Paulo, Editora HUCITEC, 1986.
RAFFESTIN, Claude. Por uma Geografia do Poder (Primeira edição 1980). São Paulo, Editora Ática, 1993.
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. Técnica e tempo. Razão e emoção. São Paulo, Editora HUCITEC, 1996 [EDUSP, 2002].
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro, Editora Record, 2000.
*Por Heloísa Santos Molina Lopes, coordenadora do Cedejor Centro-Sul do Paraná.
Mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP).