15.05.10 Há oito anos no Centro de Desenvolvimento do Jovem Rural (CEDEJOR) foi iniciado um processo educativo que contribuiu e vem contribuindo com a formação de jovens rurais no Estado de Santa Catarina com a Pedagogia da Alternância por meio do Programa de Empreendedorismo do Jovem Rural (PEJR).
A primeira turma teve formação de três anos, sendo jovens de 15 a 24 anos, apenas do município de Lauro Müller, Santa Catarina (SC), que desenvolviam atividades agrícolas. Neste formato do PEJR foram formados vinte e dois jovens.
Após a formação da primeira turma, ocorreu uma nova proposta de dois anos de formação, expandindo a atuação do programa para o território das Encostas da Serra Geral (ESG) para jovens com idade entre 16 e 29 anos. Essa proposta se manteve até 2009 com a conclusão da formação da terceira turma.
Na segunda e terceira turma houve um diferencial, alguns jovens residiam em municípios rurais, mas não desenvolviam atividades agrícolas (não tinham propriedades) e, desse modo, era necessário que os educadores estivessem aptos para atender às iniciativas novas que surgissem dos projetos dos jovens. Em 2008 quando iniciaria a formação da quarta turma, o Instituto Souza Cruz propôs a realização de um processo de avaliação e acompanhamento do Programa no Cedejor. Para isto, buscou uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
A pesquisa é realizada no núcleo Cedejor Encostas da Serra Geral-SC, iniciou-se em março de 2008 e refere-se ao acompanhamento geral dos processos de formação da quarta turma que participa do Programa. Foram apresentados os resultados em três relatórios preliminares, desencadeando estudos para uma reestruturação do Programa (FONSECA, 2009).
Compreendeu-se a necessidade de revisar a Unidade Político-Metodológica e a dinâmica de aplicação do Programa na Pedagogia da Alternância. O processo de reestruturação vem sendo realizado de forma colegiada entre Instituto Souza Cruz, Universidade Federal de Viçosa e Centro de Desenvolvimento do Jovem Rural (FONSECA, 2009).
Em 2010 estamos com novo formato de Programa nas Encostas da Serra Geral. Se antes tínhamos 22 sequências presenciais em dois anos de formação, hoje temos outro cenário são 15 sequências de alternâncias em apenas um ano de formação e isso é resultado de um processo de reestruturação, que começou em 2008 com participação de uma equipe de professores da Universidade Federal de Viçosa (UFV).
Os desafios no meio do caminho
A nova estrutura do PEJR, recém implantada, vem trazendo muitos desafios para os educadores. Como já dito anteriormente, estamos a oito anos contribuindo com a formação de jovens rurais e agora nos desafiamos a deixar alguns vícios metodológicos e pedagógicos para trás, buscando atender a demanda das juventudes rurais e seus novos projetos agrícolas e não agrícolas.
O projeto pedagógico do PEJR encontra-se embasado em princípios e valores da Pedagogia da Alternância como estratégia para a integração da diversidade de conhecimentos, saberes e competências que se formam processualmente em centros ou espaços formais de educação e nos meios vivenciais. Entre princípios e valores conferem destaque à história dos jovens e de suas famílias, em suas interações locais e territoriais, como ponto de partida para a inclusão e valorização de novos e diferentes saberes construídos em espaços e tempos diversos (Doc. PEJR 2010, p.2).
Diante dessa proposta de educação plena, como educadores em equipe continuamos na busca da qualidade que tem caracterizado nosso trabalho. Temos procurado responder a estas questões desenvolvendo nossa prática inspirados em diversas linhas educacionais que segundo Peter Senge, converge para um ponto comum: o meio através do qual o indivíduo e instituições se tornam aprendizes permanentes é o desenvolvimento de determinados Conceitos, Habilidades e Atitudes que garantam seu desenvolvimento.
Conhecimentos ou conceitos são os aprendizados relacionados ao campo cognitivo. Os conceitos estão relacionados ao conhecimento, à aquisição de informação, compreensão, aplicação de conceitos, capacidade analítica, capacidade de síntese e de avaliação. São aquelas idéias que mudam quando temos mais informações, quando encontramos uma teoria que nos abre novas perspectivas de novos elementos que incorporamos. Associamos os conceitos à imagem da cabeça.
Habilidades são as capacidades que adquirimos de praticar e fazer algo de forma diferente. O aprendizado de novas habilidades está relacionado não só com o campo psicomotor, mas também com o desenvolvimento de confiança e de competências que nos preparam para agir de forma diferenciada. Associamos às habilidades a imagem das mãos.
Atitudes são aquelas que ligam as competências às habilidades, são os aprendizados relacionados ao campo afetivo. Para dar início a um processo de mudança, não é suficiente que se tenha em mente novos conceitos. Tem-se que mudar algo no nosso modo de reagir, de incorporar valores, de ser, sentir e pensar para que consigamos colocar em prática novas habilidades. Associamos às atitudes a imagem do coração.
Estamos na busca de mudanças efetivas, mas somos sabedores de que elas só ocorrerão se, ao apreender novas informações, mudamos nossas atitudes e desenvolvemos novas habilidades na prática do dia-a-dia.
Apesar dos desafios nos sentimos parte desse importante processo de transformação/mudanças fundamentadas nas concepções do PEJR direcionadas a jovens rurais originários de formas diversas da Agricultura Familiar, tais concepções orientam a definição do PEJR, dos seus objetivos, metas e impactos para a formação de Agentes Empreendedores de Desenvolvimento Rural (ADR).
Em conformidade com este novo contexto e suas proposições, o PEJR tem como eixo articulador de sua formação educacional o empreendedorismo do jovem rural, que busca orientar uma estrutura temática focada na agricultura familiar, na juventude e no desenvolvimento rural sustentável e solidário com enfoque territorial, complementar ao eixo articulador.
A prática precisa ter força material que projete como práxis: que exija a exposição real das pessoas ao processo, tornando-o uma experiência efetiva, a tal ponto que elas se disponham ao esforço de compreender teoricamente as transformações que está provocando; na realidade mais ampla e em si mesmas. Neste movimento pedagógico há apropriação e produção de conhecimentos, de valores, de posturas, de jeito de agir; há confirmação ou mudança de convicções, de concepções. E há um aprendizado fundamental para a formação de educadores, que é o da postura e da pratica da própria reflexão: do pensar sobre o que está acontecendo e lhes acontecendo; de pensar sobre o que estão pensando e sobre porque estão pensando assim e já pensaram de outro jeito.
Entendendo que é possível refletir sem para de agir, a reflexão é posterior a uma ação particular, mas é parte de uma pratica mais ampla. E a prática não pára para que se possa pensar sobre ela; o movimento da realidade não se interrompe para que se possa entendê-lo. É preciso aprender a tomar distância sem ter que sair do lugar; é preciso parar para pensar ou para sentir ou para contemplar a ação, mas sem necessariamente ter que para de agir. (CALDART, Roseli Salete. 2007).
Trabalhar com esses desafios no dia-a-dia é sem dúvidas um aprendizado importante na formação de nós educadores. Em um processo educativo, as atividades que têm maior peso formador, são aquelas que se constituem como um conjunto articulado de ações desenvolvidas para atender a determinadas necessidades percebidas ou provocadas nas pessoas.
Referências
CALDART, Roseli Salete – ITERRA, - Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária, Intencionalidades na Formação de Educadores do Campo Verenópolis - Rio Grande do Sul, nº 11, maio de 2007.
FONSECA, Aparecida Maria. A Metodologia Integrativa da Pedagogia da Alternância. www.cedejor.org.br artigo publicado em 25/02/2010.
PEJR – Programa de Empreendedorismo do Jovem Rural. Proposta de Reestruturação (documento de trabalho, versão janeiro de 2010). UFV- Universidade Federal de Viçosa, ISC – Instituto Souza Cruz, CEDEJOR – Centro de Desenvolvimento do Jovem Rural 2010.
* Por Zeni de Oliveira, Educadora no Cedejor Encostas da Serra Geral/SC.