Técnica de Projetos
Não excede os limites da análise histórica afirmar que trabalhar com Educação no Brasil, por si só já se trata de um significativo desafio.Um país que se coloca dentre as primeiras economias do mundo contemporâneo, riquíssimo em todos os sentidos (solo, reservas minerais, petróleo, água, biodiversidade – natural e social -, insolação e clima ótimos, ...) e que segundo critérios nacionais e internacionais ocupa as piores colocações quanto à qualidade do processo ensino-aprendizagem (vide Relatórios da UNESCO, do BIRD e do Ministério da Educação, desde a década de 90), deveria nos deixar mais do que preocupados. Afinal (a) conosco parece não ser procedente a máxima de que a riqueza das nações está em dependência direta com a qualidade de suas escolas e (b) os índices de evasão, repetência e defasagem idade-série revelam-se como dos mais altos dentre as nações. Mas, não: nos preocupamos em engendrar “reformas”, em legislar à exaustão e tudo fica como sempre esteve.
Essas considerações iniciais são fundamentais, pois a questão da Técnica de Projetos (esta a denominação pedagogicamente correta) não se constitui em um “problema” à parte, mas sim em mais um dos componentes que se constituem em possibilidade de transformações profundas e que há muito não ganha o dia-a-dia das salas de aula. Vamos então, muito brevemente, tecer algumas considerações sobre o “desafio” contido no título deste ensaio, seus antecedentes, sua potencialidade e seus limites no que tange às habilidades necessárias para a atuação com base em projetos.
A rigor, desde que nos caracterizamos enquanto Homo sapiens sapiens, algo que nos distingue das demais espécies é a nossa capacidade de projetar, ou seja, de ‘inventar’ um futuro. “Ser humano” implica (claro que dentre outras tantas particularidades) em: (1) perceber um problema e enunciá-lo; (2) possuir algumas hipóteses de ação; (3) formular objetivos para a busca de soluções; (4) estabelecer um modo de ação (método) com algum controle de variáveis; (5) selecionar recursos para atuar sobre o objeto do problema e, finalmente (6) poder dizer se deu certo (avaliação). Assim, por exemplo, jamais teríamos deixado a caverna para nos tornarmos nômades e nunca teríamos deixado de ser caçadores e coletores para instalar o que se denominou Revolução Agrícola, se não fôssemos capazes de dar conta desses seis passos – ou seja, de projetar. Logo, segundo diferentes autores, lidamos com projetos há algo próximo de 50.000 anos!
Da assim chamada Pré-História aos dias que correm, nossa atuação com base em projetos sabidamente passou por diferentes aspectos de nossa cosmovisão. Houve um tempo em que desenvolvíamos nossas ações empiricamente, como estratégia de sobrevivência. Mais tarde, atribuímos a muitos deuses (e depois a um só) nosso plano de existência até que, há aproximadamente 400 anos, sob a égide do pensamento científico, passamos a projetar a vida tendo o homem como parâmetro de todas as coisas. Então, com o advento da Ciência, fica imposta a razão como única categoria aceita para o “bem-pensar o mundo”, sendo então abandonados a intuição, os sentimentos e a transcendência para a busca da “verdade”. E assim viemos até que, principalmente do decorrer do século XX, nos demos conta de que a Ciência não apenas não nos garante certezas, mas, ao contrário, nos colocou diante de erros e ilusões. A fome, as guerras, a degradação ambiental são alguns sinais (dentre muitos) de que o racionalismo não nos assegurou um presente que tenha a felicidade, a democracia e/ou a qualidade de vida como seus principais componentes.
Do ponto de vista educacional, na segunda metade do século XIX uma corrente de pensamento entendeu que o ensino retórico, com base exclusivamente na transmissão da reserva cultural, apenas multiplicava o modelo civilizatório vigente, não formando pessoas capazes de agir sobre os sistemas, transformando-as para uma sociedade melhor. É assim que nos Estados Unidos da América do Norte tem início um movimento denominado Escola Nova, o qual teve como mentor central John Dewey (1859-1952) e para o qual o pragmatismo deveria constituir-se no ideário do ato educativo, tendo o ensino com base em projetos como eixo de seu sistema.
No Brasil, o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932), subscrito por educadores e intelectuais de diferentes áreas do conhecimento tais como Fernando de Azevedo, Afrânio Peixoto, Anísio Teixeira, Roquette Pinto, Júlio de Mesquita Filho, Cecília Meirelles, dentre outros, lançou o movimento que, a rigor, nunca foi institucionalizado no território nacional, dadas as resistências oferecidas pela cultura da transferência do conhecimento acabado, enfaticamente pelas escolas confessionais que viam na Escola Nova uma tendência “subversiva de caráter socialista”. Ironicamente, a partir dos anos 80 do século passado, tendências ditas marxistas, passaram a combater o pensamento “escolanovista” por sua postura liberal, de “direita”, opondo ao saber fazer, o fazer saber.
E assim, até hoje, a escola brasileira se sustenta pelo racionalismo acadêmico com base no “dar-assistir-aula”, tendo o livro didático e as “apostilas” enquanto referências de fundo frente a um mundo de transformações diárias e profundas, onde o contexto do trabalho diz necessitar de pessoas capazes de atuar em equipes em função de projetos de ação pluridisciplinares, sempre cônscias de que o sujeito educado é aquele capaz de fazer perguntas críticas, em detrimento do que se compraz em apenas dar as respostas esperadas.
Então, os desafios permanecem: como ensinar com projetos, se a estrutura e o funcionamento das escolas são os mesmos desde o século XIX (regime hora-aula, compartimentação do conhecimento em disciplinas estanques, “provas” com base em memorização, ...)? Como exigir dos professores o desenvolvimento de projetos, se o Ensino Superior é estruturado e funciona nos mesmos moldes, tendo o Concurso Vestibular como meta? De que modo desenvolver projetos se o ambiente escolar não dispõe de recursos (bibliotecas de fato, Internet, salas-ambiente, ...) e, mesmo quando esses existem, o professor ainda divide o saber em “aulas teóricas” e “aulas práticas”? Como falar em Técnica de Projetos, se, no mais das vezes, as escolas não têm um projeto de sociedade a guiar-lhes a proposta curricular?
A utilização de projetos no ensino-aprendizagem não é uma panacéia, sua introdução na vida escolar por si só não daria conta dos entraves existentes na Educação Brasileira – como já foi dito, sua quase inexistência está no bojo de uma problemática maior que passa pela valorização do magistério, investimentos mássivos, políticas públicas sérias, ... Entretanto, a Técnica de Projetos é sim um recurso poderoso (além de outras estratégias metodológicas) no processo de formação do cidadão, desde que se tenha a Casa de Escola como um respeitável espaço civilizatório, num país que almeja ser Nação.
* Por Prof. Gastão Octávio Franco da Luz. Graduado em História Natural – Mestre em Educação – Doutor em Meio Ambiente e Desenvolvimento – Sócio Gerente da THÊMA: Assessorias & Projetos. Professor Aposentado da Universidade Federal do Paraná.