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Qual a função do jovem na sociedade?

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24.11.10  Falarei sobre a função do jovem na sociedade. Não sou mais jovem e por isso não represento o pensamento e as intenções da juventude. O que vou falar reflete o que eu, como adulto, vejo sobre a função do jovem, opinião esta pautada em minha experiência como educador de jovens rurais. Com isto quero expor que o que trago não está necessariamente correto do ponto de vista do que deseja a juventude.

Quero começar com uma pergunta anterior à inicial, que é: O que a sociedade espera do jovem?
Vamos lembrar como a juventude foi caracterizada nas últimas décadas:
a) anos 50: Juventude transviada
b) anos 60: Juventude rebelde
c) anos 70: Juventude Paz e Amor
d) anos 80: Juventude alienada
e) anos 90: Juventude ecológica
f) anos 2000: Juventude das tribos e manos

O problema desta visão é que ela resume milhões de jovens a um só comportamento como se todos os jovens fossem rebeldes, alienados ou pertencessem a uma tribo e isto não é real e é muito ruim, pois passa a imagem que a juventude é uma só e parece uma massa na qual não se diferencia ninguém.

Olhando a sociedade através dos seus 4 representantes principais: o estado, a igreja, a escola e a família nota-se que eles possuem suas próprias visões sobre o jovem. Para a família o jovem é o sucessor (da gestão da propriedade, da administração da empresa) ou é o herdeiro (do patrimônio, do sobrenome) ou ainda, em especial da área rural é uma importante mão-de-obra familiar. Para a escola é um cidadão a ser formado ou uma mão-de-obra a ser qualificada (fala-se em “estoque” de mão-de-obra).

A igreja denomina jovem como “os sentinelas da manhã”, ou seja, aqueles que vigiam o que há de vir, o que ainda vai acontecer; é uma faixa etária que precisa de direção. O estado não falava em jovem, sim porque o termo jovem na nossa constituição, aprovada em 1988, não era citado; não aparecia no texto. Isso significa que o jovem não existia. A constituição é a lei máxima e define direitos e deveres dos cidadãos. Se não é citado não recebe a atenção necessária. Parece que isto não é importante, mas não falar em jovem reflete o discurso que a sociedade adota. Quando falo em discurso me refiro do conjunto de idéias, conceitos, preconceitos que a maioria das pessoas falam, escrevem diariamente e que demonstra o seu jeito de pensar e agir. Entenda-se neste caso: Jovem é alguém que vai ser e ainda não é. Decorre deste discurso o modo como a sociedade trata o jovem, um tratamento “acessório”, ou seja, com ações não obrigatórias, que são dispensáveis.

Este quadro aos poucos esta mudando. Vejamos alguns exemplos: Proposta de emenda parlamentar 42/08 – a PEC da juventude -, que no dia 14 de julho foi publicada. A partir desta data o termo “jovem” passou a compor o texto da constituição. Jovem corresponde ao cidadão de uma faixa etária entre 15 e 29 anos. Outros avanços que demonstram a preocupação com a juventude (e já tem gente falando em ministério da juventude): a ocorrência da 1ª Conferência Nacional da Juventude e a criação do Conselho Nacional da Juventude. Estes são apenas alguns marcos. Fatos que representam grandes conquistas e ao mesmo tempo grandes desafios. Os jovens quiseram e lutaram por muitos anos para terem voz e vez nas políticas públicas do governo e agora os espaços estão se abrindo. Se vocês jovens não aproveitarem, com certeza outras pessoas com interesses diferentes de vocês ocuparão este espaço.

O grande desafio é: O jovem não pode ser tratado com um ser do futuro. E o principal para pensarmos no aqui e agora: a juventude está recebendo um mundo pronto para viver. O mundo que as gerações anteriores deixaram não é nada bonito. A minha geração herdou parte disto e não conseguiu mudar a realidade. O cenário é de fome, guerra, poluição, perda de valores humanos, desvalorização da vida, profundos problemas ambientais, corrupção, consumismo exagerado, entre outros. Estes problemas todos possuem uma característica. A decisão para solucioná-los não é técnica, mas política. Por exemplo, a fome no mundo não é causada pela falta de tecnologia para produzir, para colher, para armazenar, para transportar. O que falta é uma decisão política a favor da adequada distribuição e destino da produção.

A política que falo não é a partidária (ou somente ela), lembrando que o termo “política” significa: o conjunto de ações que são tomadas para convencer os demais que seus interesses são válidos e os meios que você utiliza para alcançá-los. Vou dar um exemplo recente de um grande problema que foi resolvido com um foco maior na política do que pela tecnologia e que atendeu o interesse geral. O vazamento de petróleo do Golfo do México foi um desses casos. Houve o vazamento, o mundo todo soube e ficou chocado e cobrou soluções. Quem entrou em cena e se sobressaíram foram presidente norte americano e o diretor executivo da BP. O problema feria muito mais que o ambiente, feria a imagem do presidente dos EUA e a multinacional de petróleo (e com ela todas as empresas do ramo). A solução rápida foi a de tapar o vazamento e lançar uma quantidade enorme de solvente, que o logo depois foi contestada pelos cientistas. Com isto o “solvente” foi a solução para dar uma resposta rápida e visível ao problema, mas não representou ser a mais acertada. Não foi falta de conhecimento e tecnologia.

Nós temos aqui no Brasil um exemplo próximo: tem um problema mundial que é a emissão de CO2 e vamos abrir poços para além do fundo do mar, ou, seja, vamos liberar milhões de toneladas de carbono. Sem contar as questões que envolvem a segurança deste tipo de exploração. Destes dois aspectos não se fala. O que prevalecerá, os aspectos técnicos ou políticos deste empreendimento?

Diante disso que foi exposto, que as soluções são resolvidas pela decisão política, o que resta a vocês jovens é MANIFESTAR-SE, ou seja, fazer movimentos juvenis que expressem o sentimento e a vontade de vocês e que tenham o poder de sugerir e agir a favor do que vocês querem para o mundo. E quando falo mundo, considero desde a casa, a comunidade, o município onde vocês residem até o planeta.
Para vocês se manifestarem vou citar aqui 3 passos simples, mas que envolvem muitas decisões e ações.
1° Definir o que vocês querem do mundo - continuar como está, evoluindo para um fim próximo ou optar por uma sociedade mais ética? Uma das definições: optarem pelo consumo consciente ou pelo consumismo (fácil, gostoso, mas destruidor)?

2° Definir que caminho tomar - citando Lewis Carroll em “Alice no país das maravilhas”:
“- Por favor, o senhor poderia me dizer qual é o caminho para sair daqui? – perguntou Alice.
- Isso depende muito do lugar para onde você quer ir. - disse o Gato.
- Não me importa muito onde... - disse Alice.
Neste caso, pouco importa o caminho que você tomar. - declarou o Gato.”
Ou seja, para quem não tem um caminho definido, qualquer caminho serve.

3° Planejar como agir - Planejar; preparar, acompanhar, revisar.  Considerações para auxiliar nessa caminhada:
a) Não faça nada sozinho: Trabalhe sempre em equipe, frequente grupos de jovens e participe de eventos. Atue em rede.
b) Pense por si próprio: reúna-se com outros jovens para discutir a sua condição na sociedade e suas concepções acerca de diversos assuntos, sempre lendo, analisando, discutindo em grupos. Uma forma importante (e que merece uma oficina especifica) é pesquisando e produzindo conhecimento. Para isto é importante conhecer a técnica de projetos. E elaborando projetos para intervir numa determinada situação.
Mas tudo isto sem prepotência, pensando que sabe tudo e se fechando para as demais opiniões. Falo em interagir com outras pessoas de outras idades.
c) Aceite ser diferente: não se deixe levar pelos modismos.
d) Seja sempre jovem: mantenha as características típicas da juventude que são a alegria; o não conformismo; a irreverência; a energia e as novas idéias.

Um mundo melhor é a UTOPIA da humanidade. Cabe esclarecer que utopia não significa algo impossível, tem o significado de “lugar que não existe” é definida como algo que se imagina possível de alcançar, mas que não se tem certeza da sua realização. É diferente de “impossível”.

O grande escritor uruguaio Eduardo Galeano Escreveu:
"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar". Para finalizar e responder a questão principal da palestra: Qual a função do jovem na sociedade? eu diria que é fazer a humanidade manter-se em constante movimento. É manter viva a utopia de um mundo melhor.

* Sergio Biron Burgardt, Educador e Gerente Executivo do Cedejor. Palestra proferida em 11/10/2010 em Santa Helena/ PR, durante o Encontro do Movimento Juvenil Teia de Sonhos.

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